De dia

​nunca te escrevi de dia.

Hoje parei porque as nuvens pareciam atarefadas e não havia pôr do sol. Mas o céu não se entendia, brigava em silêncio. O que há de pior do que o silêncio. É discreto, não dá nas vistas nem incomoda, mas esconde tanta coisa. Não sei quando o céu vai voltar a sorrir, creio que em breve. A água estava serena, mas queria-se ir embora. 

Imagino uma mesa daquelas de jardim redonda com duas cadeiras de metal de todo não confortáveis. E somos nós que as ocupamos. Tens a perna cruzada como quem está satisfeito com a vida, mas ninguém te conhece de facto. Dirias que com esta vista ficava bem um champanhe mas não há na para celebrar e o que te fica bem no palato é um clássico tanqueray. Ouves o rio a correr? São momentos da vida que temos de saber viver. São copos com bebida que temos de saber beber. E isto tudo em tanto tempo vai parecer só segundos. És tão palpável num segundo é tão parte da minha imaginação no outro. Não sei de onde vem isto que me leva para ti mas sei que existe. E eu alimento porque me dá prazer. Dá-me quando me olhas e quando me tocas é isso deixa-me feliz. E é aí que o céu volta a abrir e as nuvens deixam de brigar. É nesse momento que o silêncio me fala ao ouvido e o corpo me diz para não te voltar a largar. Porque todas as vezes que o faço nunca sei qual será a última.






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