Memoir.
Não sei como me referir às coisas. Não sei como me referir a mim, foi-me pedida a autobiografia. Mas eu penso, o que é isso? Isso não no sentido de ser mas sim de me pertencer. Talvez tenha uma biografia, mas não sei escreve-la, lembro-me apenas de coisas breves. Lembro-me delas curtas porque não as quero aprofundar, não quero remexer naquilo que remexeu com a minha vida, naquilo que lhe deu tantas voltas em tão pouco tempo. Não diria que sou incapaz de escrever a minha autobiografia, mas como? Uma coisa é dar aqueles detalhes breves que todos conhecem, outra coisa é dar-lhes a conhecerem o meu verdadeiro eu, o lado que poucos conhecem mas muitos pensam o contrario. Não diria que é um lado sombrio, de trevas mas também não diria que é o paraíso e a perfeição porque sei que isso não existe, ninguém é tão perfeito até esse ponto.
Lembro-me de ser pequena e de estar no parque, não era um parque qualquer, era o parque ao pé do teu prédio, estávamos a ir para lá, era inverno e as ruas estavam cheias de neve, parece que ainda agora sinto o cheio daquele inverno frio. Estava com os meus pais e com a minha irmã, era das melhores coisas que nos podiam dar com aquela idade, era a liberdade. Era de noite, parece que ainda agora olho para cima e vejo a neve a escorregar naqueles postes enormes com as luzes alaranjadas, era tão lindo. Poderia passar lá o resto da minha vida, tenho a certeza que não ia ser infeliz. Porque olha, estavas lá tu, no inverno tinha neve, podíamos brincar os dois e no verão a nossa árvore de cerejas já estava boa. O que mais poderia pedir? Poderia pedir para que voltasses só para me agarrares uma ultima vez, para me perguntares se quero ir passear. Eu peço-te todos os dias para que me dês cinco minutos para me poder despedir de ti, para te poder dizer tudo o que ficou cá dentro, e acredita não foi pouco, volta, volta por favor. Acho este mundo tão estranho sem ti, ele já era, imagina agora. Eu precisava de ti que me desses uma direção, que me dissesses quando ir para a cama. As pessoas não têm consciência, elas não têm mesmo consciência de como é viver sem ti, de como e difícil seguir em frente sabendo que ficaste para trás. Não sabem a força da palavra saudade, não sabem o que é ela transformar se em lágrimas.
Não era suposto ser assim, assim não, não é um jogo justo. O teu lugar era aqui. Eu devia de estar a dormir e a pensar que amanha teríamos as coisas para o natal para preparar, que as iria prepara contigo, mas eu estou aqui a encher-me de lágrimas porque já não aguento guardar tudo para mim, eu vim desabafar contigo, achei que podia, achei que não te irias importar, achei que poderias estar aqui a dar me uns conselhos. Foi injusto, foi injusto eu não ter podido escolher, eu tinha esse direito, eu precisava de te ver pela ultima vez, eu precisava de te ouvir, eu precisava mesmo de ti, avô...
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